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Naquela última aula antes das férias do Natal, todos esperávamos que o professor de Português resumisse ao mínimo as suas considerações de final de período e nos desse tempo livre para desbaratar ao bel-prazer de cada um. Pela minha parte, já estava marcada a desforra de mais uma partida de bilhar perdida ingloriamente para o Duarte durante a hora do almoço. Mas ao contrário das expectativas, o professor alapou-se em cima da secretária e perguntou-nos com um sorriso comprometido: “O que é o Natal?”

Um silêncio estupefacto varreu a sala de aula de uma ponta à outra. Que pergunta era aquela? As mochilas já estavam arrumadas em cima das mesas, alguns colegas até já tinham os casacos vestidos e aquele professor atrevia-se a incomodar a urgência das férias para nos questionar sobre o Natal? “É uma tradição”, atirou uma miúda lá de trás tentando despachar o assunto. “Oh stôr, é o único dia em que deixam o Pai Natal sair da Lapónia”, ripostou o Duarte com um gorro vermelho de Natal enfiado até aos olhos. A gargalhada geral desfiou o rebuliço durante alguns momentos mas o professor manteve-se imperturbável. “É uma festa da família”, disse alguém com a certeza de quem afirmava o óbvio. O professor simulou uma careta parecida à que fazia sempre que alguém mostrava no quadro que ainda não era capaz de identificar as funções sintáticas de uma frase. ”É uma celebração cristã”, titubeei numa espécie de afirmação que mais parecia uma pergunta. Ele olhou para mim do fundo das suas sobrancelhas grisalhas e perguntou: “Sabias que a festa do Natal tem raízes pagãs que são ainda mais antigas do que o império romano?” Claro que eu não sabia. “É verdade que esta celebração se popularizou como uma festa cristã mas hoje é celebrada no mundo inteiro por pessoas de diferentes religiões, por pessoas sem religião, ou até por quem não acredita em divindade alguma. O Natal globalizou-se numa festa de um planeta inteiro. O que eu pergunto é: O que é que o mundo celebra neste dia?”
Não me lembrava de nada inteligente para dizer. A pergunta era simples mas tudo o que me vinha à cabeça roçava o ridículo. O resto da turma parecia acometida do mesmo vírus e até o Duarte, que se encontrava sempre pronto a expelir a primeira estupidez que apanhava distraída, estava muito quieto cada vez mais enterrado naquele horrível gorro vermelho. Finalmente, o professor interrompeu o nosso embaraço:

“De que serve celebrar algo se não lhe atribuímos qualquer significado? Sem um propósito até a vida se torna impossível de suportar. No Natal festeja-se um nascimento singular. Há muitos anos, os homens estavam cansados de violência, de injustiça, de desigualdade e sofrimento, ansiavam pela chegada de um libertador, sonhavam com a vinda de um messias que inaugurasse uma nova era de prosperidade. E um menino nasceu, veio ao mundo num estábulo de Belém, aconchegado numa manjedoura e abraçado pela mais cândida simplicidade. Hosanas foram entoadas e os corações dos homens encheram-se de júbilo, esperança. O menino revelou-se um príncipe da paz, mas o povo queria um rei poderoso, um guerreiro excepcional que destruísse os exércitos inimigos. Não entenderam o menino. O sentido do Natal não é o nascimento desse menino, ele revela-se no nascimento em nós de tudo o que esse menino representa.

A nossa sociedade anda desorientada, continuamos sem entender aquele menino. É como se andasse em círculos, dominada por um gigantesco redemoinho que vai atraindo os homens para o descontentamento. Encarcerados nesse ciclo vicioso, continuamos a insistir em sustentar as bases emocionais da vida na vaidade, no orgulho e na imagem que desejamos exibir diante dos outros, cultivando a ideia de que o valor íntimo de alguém é contabilizado pelas coisas que possui, pelo sucesso ou notoriedade que alcançou ou pelo poder que tem sobre os outros. Competimos como loucos pelos mesmos recursos financeiros e naturais, subjugando todos os interesses que colidam com o egoísmo e com a indiferença. Vejam como para manter o modo de vida de alguns, os homens acentuam as desigualdades, pactuam com injustiças, criam guerras devastadoras e até destroem a natureza ao ponto de colocar em causa a sua própria sustentabilidade.

Esta é na nossa sociedade! Estes são os valores que orientam as nossas vidas. No meio disto, chega o Natal uma vez por ano, a propalada festa da família, a época do amor e da caridade, da luz e da paz. Não são mais do que disparates para embalar as criancinhas. Os valores que orientam as nossas vidas não desaparecem só porque é Natal, apenas ficam mascarados. Olhem à vossa volta: O Natal não é uma época de sensibilidade e reflexão, transformou-se numa festa de impulsos e excessos, num banquete para os sentidos físicos que procura confundir e inebriar, que tem a pretensão de maquiar os preconceitos e as fragilidades sociais através da sedução e do encantamento barato. O que o mundo festeja no Natal é a competição, o marketing, o fingimento, a hipocrisia.

É preciso resgatar a simplicidade daquele nascimento, permitir que as suas ideias cresçam em nós. Ao longo da sua vida, aquele menino fez-se o mais extraordinário dos homens, mostrando o amor em ação, ensinando que por detrás de cada ser humano existe um mundo que está à espera de ser compreendido, existe alguém que é digno do nosso respeito, do nosso tempo, da nossa atenção. É a compreensão da poesia deste nascimento, é no entendimento de como o amor se fez menino para devolver a esperança à humanidade e libertá-la das teias opressoras do egoísmo e da indiferença, que reside o âmago do sentido do Natal.

O Natal simboliza a celebração da ideia que aquele menino semeou nos nossos corações: a fraternidade universal. Mas não celebrem apenas o Natal, concretizem-no! Boas férias.”

Quando dei por ela, o Duarte já estava lá fora, de sorriso travesso encostado ao vidro da janela, acenando a sua intenção de me frustrar mais uma desforra. Deixei-o ganhar, só por ser Natal.

Carlos Miguel

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