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Tanto o homicídio como o suicídio são abusos do livre-arbítrio. Assim, não devem ser atribuídos apenas a débitos reencarnatórios, mas também ao uso errado da vontade. Um dos princípios universais da existência humana é o da não-violência em relação aos outros, aos nossos comportamentos, pensamentos e corpo. Tudo o que vá contra este princípio é um atentado à auto-preservação. Todos os valores, toda a ética e todo o sentido de auto-preservação dependem do nosso livre-arbítrio.

O neurocientista Francisco Varela comparou a nossa identidade a um tornado. “Nós e os tornados descobrimos uma peculiar maneira de ser na natureza que consiste numa combinação de ser e não-ser”, disse.

É entre o ser e o não ser que se originam todos os tornados em nós. Sempre que escolhemos não ser, somos como um tornado. Por isso, psicologicamente falando, a vontade de se suicidar pode ser considerada normal. Porém, torna-se um distúrbio se for causada por um motivo que não pertence ao nosso presente. Por exemplo, “eu quero suicidar-me porque não fui seleccionado para um emprego”. No fundo, a vontade de suicídio já existia e o emprego foi o pretexto.

O suicídio parece ser solução quando existe: 1) uma mente tagarela: identificação excessiva com os nossos pensamentos; 2) culpa e mágoa: identificação excessiva com as nossas acções (realizadas no presente ou em vidas passadas) e seus resultados.

Devemos lembrar que os nossos pensamentos somos nós, mas nós não somos os nossos pensamentos. Que as acções são nossas, mas nós não somos só as nossas acções. “O pensamento e a vontade são para os espíritos o que a mão é para o Homem” (Kardec, in Revista Espírita, 1868). O pensamento manifesta-se na aura humana como os relâmpagos numa tempestade; basta que o espírito pense fixamente em algo para que a criação mental se forme no seu campo magnético. Essa criação é fortalecida pelas emoções e sentimentos associados a esse pensamento. As emoções alimentam o pensamento que ganhará uma forma cada vez mais sólida até que uma acção magnética interior ou exterior (como a prece, o passe ou pensamentos opostos que anulem os pensamentos nocivos), contrarie essa tendência.

Mas como observar o tornado quando estamos dentro dele? Como observar os nossos pensamentos e reconhecer a sua origem? Há 2 coisas que podemos fazer:
1) Disciplina (esforço sobre si mesmo): Parar e regressar àquela que deve ser a nossa rotina diária de nos sentarmos em silêncio e simplesmente reconectarmo-nos connosco e com a inspiração de Jesus, focando o nosso pensamento nele. Este gesto tão simples de fazer silêncio em nós é o primeiro passo para o tornado começar a perder força. Sentimentos negativos como o cansaço espiritual, culpa, frustrações, ansiedades, solidão também resultam de falhas nas nossas disciplinas e práticas. Essas práticas podem incluir uma leitura construtiva, ir ao Centro espírita, meditar, estar em contacto com a natureza, pedir ajuda ao nosso mentor espiritual, etc.

2) Reconhecimento e aceitação: Tal como Pedro que renegou Jesus por três vezes, também todos nós alternamos a sintonia entre os propósitos nobres da existência (espirituais) e os mundanos. Lentamente, Pedro aprendeu a conciliar os opostos na sua intimidade e a amar a sua sombra, reconhecendo-se luz. Converteu a sua alma de tal forma vigorosa que até mesmo a sua sombra curava enfermos e obsediados (Actos 5, 14:16). Pedro tornou-se o exemplo vivo do amor de Jesus, pois acolheu em si mesmo a aceitação dos seus limites pessoais, dos seus conflitos e das suas dores, mas sem se deixar vencer ou anular-se por eles. Pelo contrário, ele utilizava as suas fraquezas para construir a sua força. Pedro soube erguer-se da frustração de não ser ainda o que desejava sem se deixar dominar pela negação de si mesmo. Pedro foi divino porque foi humano, porque se aceitou; sedimentou a sua fé nos altos e baixos do quotidiano. Venceu-se a si mesmo na luta diária de auto-superação e aceitação. Hoje podemos estar a caminhar sobre as águas ou a afundar-nos, podemos estar paralisados pelos sofrimentos físicos e mentais, mas para que haja plenitude não podemos esquecer que, tal como Pedro, também somos pedra sobre a qual Jesus erguerá a sua igreja (do amor universal).

Filipa Ribeiro

Junho 28, 2016

Suicídio, uma questão de pensamento

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