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Um por muitos e muitos por um

Como é que Espiritismo e Biologia olham para o altruísmo, bondade e caridade?

O altruísmo pode ser uma coisa boa, excepto se o leitor for um biólogo evolucionista (que defende a teoria da evolução de Darwin). Nesse caso, o altruísmo tanto pode ser um mistério como uma maldição. Afinal, como é que a selecção natural pode conviver com indivíduos – humanos ou não-humanos – que ajam de forma difícil para si mesmos, mas de forma útil para os demais? O próprio Darwin estava ciente deste dilema e procurou esboçar algumas soluções. Porém, foi só no séc. XX que o altruísmo se tornou relevante para os biólogos evolucionistas. Várias soluções têm sido propostas. Uma delas nega que o altruísmo exista na natureza ou que é tão raro que não vale a pena perder tempo com ele. Outra solução formula teorias segundo as quais a selecção natural é tão forte que prevê a existência de altruísmo, ainda que essas teorias não tenham sabido, até agora, definir o nível em que actua a selecção natural. Será que selecciona os organismos mais aptos, os genes mais fortes, populações, espécies? Assim, o problema do altruísmo tornou-se inseparável dos níveis de selecção natural.

David Wilson, biólogo e antropólogo, tem defendido a teoria da selecção multinível. Explica o cientista que se a única unidade de selecção fosse o organismo seria de esperar que não houvesse a evolução de traços altruístas ou bondosos. Passou-se a postular que, no mínimo, teria de existir um nível superior no qual a selecção natural poderia operar: o grupo. O pressuposto básico desta teoria é que o grupo como um todo beneficiaria quando um indivíduo altruísta se encontrasse no mesmo. Por exemplo, várias espécies de aves apresentam um comportamento conhecido como “gritos de alarme” que é, basicamente, a emissão de um aviso por uma das aves quando esta percebe a presença de perigo.

Poucos biólogos evolucionistas aceitaram esta teoria, mas Wilson contra-ataca com o seu último livro O altruísmo existe?. O investigador diz que o problema do altruísmo na natureza está definitivamente resolvido. Para desespero de muitos, Wilson defende que a teoria multinível do altruísmo não só existe como faculta uma forma poderosa de pensar e orientar a evolução de instituições sociais humanas, como a economia. Isto significa que os mecanismos de selecção natural, a vários níveis, tanto ocorrem na natureza, como nas instituições humanas. A argumentação do cientista é complexa e vai desde a distinção entre pensamentos, acções e sentimentos até culminar na resposta de que sim, o altruísmo e a bondade existem. Vejamos agora como é que o Espiritismo acrescenta ao conhecimento científico dimensões relativas no que toca aos valores, tais como a bondade e a caridade.

 

Valores éticos universais?

Os valores éticos universais, consciente ou insconscientemente, permanecem como uma matriz para o auto-julgamento de quaisquer acções ou pensamentos que transgridam esses valores. Sempre que desrespeitamos um valor universal, ocorrem conflitos na nossa mente, sejam eles na forma de culpa, auto-condenação, rebeldia, ou outro. Daqui é fácil perceber que mais do que inspirações passageiras ou ideias brilhantes, são os nossos hábitos mentais quotidianos que controlam a nossa vida.

O Evangelho dirige-se precisamente aos nossos hábitos mentais. O Evangelho segundo o Espiritismo (ESE) e muitos espíritos já nos vieram confirmar que todos os males nas nossas vidas, bem como na evolução da humanidade, se devem a uma só causa: a de não aplicarmos o Evangelho, sendo ele a fonte da paz tripla: a paz connosco mesmos, a paz para com os demais e a paz para com a natureza. O capítulo VII do ESE lembra claramente para falarmos do Evangelho, mas fugindo dos holofotes, para praticarmos a caridade e abandonarmos a exibição. Já no cap. XII, é-nos lembrado que “a beneficência não é ajuda qualquer, é auxílio fraterno que não se ostenta nem desdenha o necessitado, pois o bem que se faz ao próximo é sempre um bem a si mesmo”.

Dar e partilhar é um sinal de crescimento. Não dar é um sintoma de definhamento. Ser um consumidor a tempo inteiro sem nos tornarmos contribuidores não é uma forma de vida. Temos de ser contribuidores. Mais: temos de ser contribuidores genuínos. Mas só nos tornamos contribuidores genuínos quando removemos da nossa mente falsas noções sobre o mundo e sobre as pessoas. Temos de dar (e de nos dar) até nos doer a nós. Dar é como fazer levantamento de pesos. Não podemos levantar uma chávena e dizer que fazemos musculação. Temos de levantar os pesos que quase não conseguimos levantar, tal como os culturistas fazem. E se temos tantas formas e tanto para dar (tempo, ouvir alguém com quem não simpatizamos ou que nos aborrece, elogiar alguém mesmo quando sabemos que, em privado, aquela pessoa não é o que parece, encorajar, empatizar, partilhar o nosso conhecimento, orar por alguém), não há outra forma senão dar até doer. Porque nessa dor vamos crescer e aprender a amar incondicionalmente.

É inútil procurar dentes no bico de um corvo ou a quinta pata de um gato. Por isso, é inútil perguntarmo-nos sobre as imperfeições do mundo ou nos outros com quem convivemos. Ver a criação como algo imperfeito é produto das nossas próprias projecções e desejos de que o mundo ou as pessoas deveriam ser diferentes do que são. Claro que isso não significa que devamos resignar-nos ou furtar-nos a cumprir as nossas responsabilidades quando percebemos que somos contribuidores em qualquer situação. É isso que nos mostra a explicação do biólogo Wilson sobre a presença e importância do altruísmo nas instituições sociais. Afinal, como diz Emmanuel, “Deus está em nós, quanto estamos em Deus”. Isto que parece tão simples representa a maior mudança cognitiva que temos de fazer: aceitar que não temos de mudar nada, mas que temos de contribuir para que não se caia nas armadilhas da agitação mental e, sobretudo, porque a nossa verdadeira natureza é o amor, ou seja, a contribuição cooperante. “Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” (Paulo, I Coríntios, 3:9).

Filipa Ribeiro

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