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Só por ser Natal
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Acreditar

A minha primeira desilusão com o Natal, como com muitas crianças, foi descobrir que o Pai Natal não existia. Mas ao contrário das restantes crianças, a desilusão não veio por essa figura afinal não existir que isso era-me indiferente, mas pela constatação de uma mentira (feia) dos adultos.

Por que razão sentem os adultos necessidade de mentir às crianças a propósito de uma figura martelada por uma empresa norte-americana, mesmo imbuídos das melhores intenções? Lembro-me da noite dessa descoberta e da enorme vontade de fugir da casa da minha tia, fugir dos meus pais, fugir de toda aquela encenação que toda a família preparava para uma prima, a minha parceira na ilusão de que o Pai Natal existia. Sendo eu um pouco mais velha do que ela, de repente, deram-me a entender que eu já não tinha direito a viver essa ilusão. Devido a algo chamado idade. Na altura, essas coisas levam-se a peito e não gostei nada, mas colaborei na encenação para a prima, sentindo-me pessimamente por lhe estar a mentir. Ainda hoje ao passar em revista essas memórias, me questiono sobre esta necessidade que temos em complicar, em encenar, em fingir? A desculpa de que é para as crianças não cola. Não há, racionalmente, nenhum argumento que justifique mentir a uma criança sobre algo tão importante: a capacidade dela sonhar, de se iludir, de acreditar no fantástico.

Falar-lhe no Pai Natal e associar o Natal ao tipo de barbas é, pura e simplesmente, passar um atestado de incapacidade mental e cognitiva às nossas crianças.

Tão mau ou pior do que incutir essa figura de marketing a uma criança é, novamente, tirar a importância a quem supostamente celebra o seu aniversário: Jesus. Será que nos damos conta da imensidade de coisas belíssimas de que poderíamos falar às crianças, fazer com elas, transmitir-lhes pelo exemplo? Isso é o que verdadeiramente me preocupa. Não as críticas ao consumismo, o qual tem o Pai Natal como arauto. Afinal, pelo menos quando se compra um presente, mesmo quando se oferece por obrigação, sempre se pensa na pessoa a quem ele será oferecido.

Não se trata aqui de fazer uma ‘guerra’ ao Pai Natal, até porque essa mesma mentira inocente que os pais espetam às suas crianças tem também um ponto admirável: a de tentar fazer acreditar. Ineficazmente, mas ok. Só é pena que só seja esse o alvo.

Aprender a acreditar é algo que fazemos toda a vida. Só temos de saber escolher em que acreditar e pelo que lutar. Acreditar é um verbo transitivo, ou seja, significa tornar-se confiável, digno de confiança, esperar e confiar. Trata-se, pois, de um processo que o pedagogo Hypollyte Denizard Rivail, sob o nome de Allan Kardec, sintetizou desta forma: “Estudai primeiro e vede depois, porque compreendeis melhor”. Numa outra grande obra Paulo e Estêvão, altamente recomendável para celebrar o aniversariante, Abigail dava a receita infalível para viver: “Trabalha, ama, espera e perdoa”. No livro Renúncia, Alcíone diz: “não devemos acreditar que o Cristo só haja trazido ao mundo a palavra revigoradora e afectuosa, senão também um roteiro de trabalho, que é preciso conhecer e seguir, em que pesem às maiores dificuldades. Para isso, é indispensável tomar os nossos sentimentos e raciocínios como campo de observação e experiência, trabalhando diáriamente com Jesus na construção da arca íntima da nossa fé. Naturalmente que essa edificação não prescinde do material adequado, constituído pelas virtudes e conhecimentos”. Novamente: estudar, compreender e acreditar.

Até a Psiquiatria contemporânea afirma que todos temos, dentro de nós, a ideia de que fomos esperados e, quando não a temos, perdemos a saúde mental. A ideia de que somos e fomos queridos é fundamental para a construção psicológica de uma pessoa, de uma criança. E é fundamental para o seu desenvolvimento, entre si e as pessoas com quem se ligou, entre si e aquelas com quem se vai ligar. Mas, em alturas em que estamos mais necessitados, como no Natal, é importante saber escolher como amar e como deixarmo-nos ser amados, porque o Natal, quer tenha ou não esse nome, e em todas as culturas, é esse desejo de reunião, de estar com o outro. E não é esse um dos legados de Jesus à Humanidade? Ele chamou a atenção para o outro, e para a necessidade que todo o ser humano tem do outro dentro de si. Ao mesmo tempo que é uma necessidade, esse desejo de reunião é também um pedido de amor. Um pedido que se transforma em dádiva. Uma dádiva que se transforma numa bela forma de vida.

Filipa Ribeiro

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