Sou mais do tipo pedra!

I have a dream – Martin Luther King Jr- 1963
Novembro 27, 2015
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Dezembro 18, 2015

Sou mais do tipo pedra!

A mediunidade é um tema muito mal compreendido pela generalidade das pessoas. Entre os que aceitam esta possibilidade de comunicação, parece predominar ainda uma certa tendência para romantizar de tal forma o fenómeno mediúnico que os médiuns são vistos como indivíduos à parte da normalidade, seres dotados de faculdades sobrenaturais.

Pelo acesso que dispõem a um mundo que para muita gente é um completo enigma, os médiuns são figuras míticas que, encaixando num perfil que as pessoas idealizam para a sua conduta, encarnam um papel de quase semideuses, caso contrário, acabam perseguidos por críticas vorazes, cáusticas, que revelam uma grande dose de insensibilidade.

A atitude idólatra, a mitificação e o culto de personalidades é um vício milenar da humanidade, uma postura comodista que é aproveitada pelos interesses mais mesquinhos para subjugar e manipular consciências em nome da fé. Porventura mais grave do que isso, este tipo de comportamentos alimenta a ideia de que existam pessoas privilegiadas e infalíveis, mensageiros predilectos das inteligências superiores. Os pedestais que vão sendo construídos para essas pessoas são tão elevados e sumptuosos que quem os erige se vai diminuindo diante deles ao ponto de não reconhecer o seu poder interior, confundindo admiração com adoração, trocando a referência pelo mito.

Tendo sido criada contra qualquer elitismo e sectarismo, a Doutrina Espírita, como uma proposta educativa do ser humano, defende que a mediunidade não é um privilégio de ninguém. A mediunidade é uma condição natural do desenvolvimento sensitivo do ser humano, que permite a percepção de factos relacionados com o ambiente mental, emotivo e espiritual que nos rodeia. A sensibilidade mediúnica é um fenómeno da vida que todos possuímos em maior ou menor grau. No entanto, existem pessoas que dispõem de condições específicas para servirem de instrumentos mais ostensivos aos Espíritos desencarnados para as suas manifestações, representando o que vulgarmente se chama de médiuns. Mas estas não são pessoas mais evoluídas do que as restantes mas sim Espíritos que se comprometeram em passar pelos desafios da mediunidade ostensiva com o objectivo de transformarem comportamentos passados ou comprovarem as capacidades do seu Espírito, tendo sempre como missão última servir o progresso da humanidade colocando em evidência a realidade da dimensão espiritual da vida.

Perante a afirmação de que a mediunidade não é privilégio de ninguém existem sempre alguns sorrisos trocistas: “Disparate! Eu, médium? Sou mais do tipo pedra!”

A nossa sensibilidade mediúnica pode não ser suficiente para perceber claramente os Espíritos que nos rodeiam ou conhecer as notícias mais bombásticas do plano espiritual mas, isso não quer dizer que o papel da mediunidade na nossa vida esteja remetido à apatia dos minerais. No livro “Conceituação da Mediunidade”, Herculano Pires escreve desta forma sobre a mediunidade nas nossas vidas: “O acto de viver é um acto mediúnico. Somos espíritos que se manifestam através de corpos materiais. (…) A nossa vida não é material, é espiritual e como tal regida pela mente. Alimentamo-nos de matéria para sustento do corpo, mas vivemos de anseios, sonhos, aspirações, ideias e impulsos espirituais que brotam do nosso íntimo ou nos chegam em forma de sugestão e, às vezes, de envolvimento emocional do meio em que vivemos, das mentes encarnadas e desencarnadas que nos cercam e convivem connosco.”

Só que, normalmente, estamos pouco despertos para o carácter decisivo da sensibilidade mediúnica nas nossas vidas. Enredados pela sedução da matéria e insensíveis aos apelos íntimos da nossa consciência, embarcamos em conflitos perturbadores que limitam a expressão da espiritualidade que vive em nós. Desconectados da essência espiritual que em nós anseia por crescimento e elevação, deixamo-nos corromper por pensamentos viciosos que aniquilam o amor-próprio e desvirtuam o nosso papel na vida. Brutalizados pelo imediato e pela aparente consistência daquilo que parecemos moldar a nosso bel-prazer, continuamos insensíveis à influência mental e espiritual do ambiente em que nos encontramos, das pessoas com quem nos relacionamos e dos comportamentos que evidenciamos. Diante do desequilíbrio, preferimos investir em soluções ditas mágicas em vez de sermos coerentes com os princípios de espiritualidade que nos abrirão o caminho para saciarmos a urgência de plenitude e transcendência que habita no coração humano.
A sensibilidade mediúnica não se restringe ao papel de intermediário à manifestação das ideias e emoções dos Espíritos. São olhos que nos ajudam a perscrutar a essência mais genuína do nosso sentir, ouvidos preparados para compreender os reais anseios da nossa consciência. É ainda ela que nos projecta para tactear as emoções, sentimentos e necessidades das pessoas que nos rodeiam, adequando palavras e comportamentos às mais diversas situações, saboreando o perfume da inspiração divina em tudo aquilo que gira ao nosso redor.

A mediunidade é um canal subtil de comunicação com a Vida a um nível mais profundo. E o mais sublime grau da mediunidade é dar voz a Deus em nossos corações.

Carlos Miguel

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