Steve Jobs – Discurso em Stanford em 2005

Apresentação da Luz da Razão Editora
Novembro 16, 2015
I have a dream – Martin Luther King Jr- 1963
Novembro 27, 2015

Steve Jobs – Discurso em Stanford em 2005

Estou honrado por estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Eu nunca me formei. Verdade seja dita, eu nunca terminei a faculdade e isto é o mais próximo que cheguei de uma formatura. Hoje, gostaria de contar-vos três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias.”

A primeira história é sobre ligar os pontos.



Eu abandonei o Reed College no fim do primeiro semestre, mas fiquei por lá mais 18 meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei? Tudo começou antes de eu nascer. A minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu dar-me para adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e pela sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam uma menina.



Então os meus pais, que estavam numa lista de espera, receberam uma ligação a meio da noite com uma pergunta: “Temos um bebezinho inesperado. Querem-no?” Eles disseram: “É claro.”



A minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca se tinha formado e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela recusou-se a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou uns meses mais tarde quando os meus pais prometeram que um dia eu iria para a faculdade. Este foi o início da minha vida. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, ingenuamente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, da classe trabalhadora, estavam a ser gastas para pagar a minha educação. Seis meses depois, eu não via valor naquilo.



Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e nem idéia de como a universidade me poderia ajudar a descobri-lo. E lá estava eu, a gastar todo o dinheiro que meus pais tinham poupado durante toda a vida. E então decidi largar tudo e acreditar que tudo ficaria bem.



Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já tomei. No minuto em que desisti, eu deixei de assistir às aulas obrigatórias que não me interessavam e comecei a assistir àquelas que me pareciam mais interessantes. Não foi tudo romântico. Eu não tinha quarto no dormitório e por isso dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 cêntimos, com os quais comprava comida. Eu andava 11 quilómetros pela cidade todos os domingos à noite para ter uma refeição decente no templo hare-krishna. Eu amava aquilo.



Muito do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço. Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada póster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela caligrafia manual. Porque tinha desistido do curso e não frequentava as aulas normais, decidi assistir às aulas de caligrafia para aprender como aquilo se fazia. Aprendi sobre fontes serifadas e não serifadas, sobre variar o espaçamento entre diferentes combinações de letras, sobre o que engrandece uma boa tipografia. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente subtil de uma maneira que a ciência não podia explicar. E eu achei aquilo fascinante.



Nada daquilo tinha sequer qualquer tipo de aspiração prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos a criar o primeiro computador Macintosh, tudo voltou a mim. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com uma bela tipografia. Se eu não tivesse desistido daquele curso na faculdade, o Mac jamais teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E já que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse.



Se eu não tivesse desistido, nunca teria frequentado aquelas aulas de caligrafia e os computadores não teriam a maravilhosa caligrafia que hoje têm. É claro que era impossível ligar os pontos olhando para frente quando estava na faculdade. Mas tornou-se muito, muito claro ao olhar para trás 10 anos depois.



De novo: não se consegue ligar os pontos olhando para frente, só se conseguem ligar olhando para trás. Então têm de acreditar que, de alguma forma, os pontos hão de ligar-se no futuro.

Têm de confiar em alguma coisa – no vosso deus, destino, vida, karma ou no que quer que seja. Pois acreditar que os pontos se ligarão algures no caminho vai dar-vos a confiança para seguir o vosso coração mesmo que ele vos conduza para longe do caminho esperado e isso fará toda a diferença.


A minha segunda história é sobre amor e perda.



Eu tive sorte. Descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começámos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhámos duro e, em 10 anos, a Apple transformou-se numa empresa de nós os dois numa garagem, numa empresa de 2 mil milhões de dólares e de mais de 4 mil empregados. Um ano antes, tínhamos acabado de lançar a nossa maior criação — o Macintosh — eu tinha 30 anos e então fui despedido.



Como é possível seres despedido da empresa que criaste? Bem… como a Apple cresceu, contratámos alguém para gerir a empresa. No primeiro ano, correu tudo bem. Mas então as nossas visões do futuro começaram a divergir e a dada altura discutimos. Quando isso aconteceu, o conselho de diretores ficou do lado dele. Então aos trinta, eu estava fora. Vergonhosamente fora. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha desaparecido e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer durante alguns meses.



Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava a ser-me passado. Encontrei-me com David Peckard e Bob Noyce e tentei desculpar-me por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e cheguei a pensar em fugir de Silicon Valley.



Mas, lentamente, algo começou a crescer em mim: eu ainda amava o que fazia. O que aconteceu na Apple não alterou isso nem um pouco. Foi quando decidi começar de novo. Tinha sido rejeitado, mas continuava apaixonado. Aí decidi começar de novo. Não consegui perceber isso na época, mas ser despedido da Apple foi a melhor coisa que me poderia ter acontecido. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, sem certezas sobre fosse o que fosse. Isso libertou-me para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e apaixonei-me por uma mulher maravilhosa que se tornaria minha esposa.



A Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é hoje o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Numa inacreditável sequência de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a Apple e a tecnologia que desenvolvemos na NeXT está no coração do atual renascimento da Apple.

 E Lorene e eu temos uma família maravilhosa em conjunto. Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido despedido da Apple.



Foi um remédio horrível, mas eu acho que o paciente precisava dele. Às vezes, a vida bate-te com um tijolo na cabeça. Não percam a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Têm de descobrir o que amam. Isso é tão verdade para o vosso trabalho quanto para com as pessoas que amam.



O vosso trabalho preencherá uma grande parte da vossa vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que acreditam ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que fazem.



Se ainda não o encontraram, continuem à procura. Não sosseguem. Assim como todos os assuntos do coração, saberão quando o encontrarem. E, como em qualquer grande relacionamento, só melhora à medida que os anos passam. Então continuem à procura, não se acomodem.


A minha terceira história é sobre a morte.



Quando eu tinha 17 anos, li um pensamento que dizia algo deste género: “Se viveres cada dia como se fosse o último, certamente que algum dia estarás certo.” Aquilo impressionou-me, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim ao espelho todas as manhãs e pergunto-me: “Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta for “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.


Lembrar-me de que estarei morto em breve é a melhor ferramenta que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões na minha vida. Porque quase tudo — expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar — caem diante da morte, deixando apenas o que é importante. Lembrares-te de que vais morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar de que tens algo a perder. Já estás nu. Não há razão para não seguires o teu coração.



Há cerca de um ano, foi-me diagnosticado um cancro. Fiz um exame às 7h30 da manhã que mostrava claramente um tumor no meu pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas.



Os médicos disseram-me que aquilo era de certeza um tipo de cancro incurável, e que eu não deveria esperar viver mais do que três a seis meses. O meu médico aconselhou-me a ir para casa e deixar os meus assuntos arrumados — que é o código dos médicos para “preparar para morrer”. Significa tentar dizer às suas crianças tudo aquilo que pensaste ter os próximos 10 anos para dizer em apenas alguns meses. Significa certificares-te de que tudo está em ordem para que seja o mais fácil possível para a tua família. Significa despedires-te.



Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Mais tarde, fiz uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas a minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células num microscópio, começaram a chorar. Porque eu desenvolvi um forma muito rara de cancro pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu fiz a cirurgia e, gratamente, estou bem agora.



Isto foi o mais próximo que já estive de enfrentar a morte e espero que seja o mais próximo que estarei pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer-vos, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito útil mas puramente intelectual: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá.



Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Nunca jamais alguém conseguiu escapar-lhe. E assim é que deve ser, porque a morte é muito provavelmente a mais bela invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Neste momento, o novo são vocês. Mas algum dia, não muito distante, vocês gradualmente se tornarão no velho e serão varridos do caminho. Desculpem ser tão dramático, mas esta é a mais pura verdade.



O vosso tempo é limitado, então não o desperdicem a viver a vida de outra pessoa.



Não sejam apanhados pelo dogma, que é viver de acordo com o resultado do que outras pessoas pensam.



Não deixem que o barulho da opinião dos outros cale a vossa própria voz interior.



E o mais importante: tenham a coragem de seguir o vosso próprio coração e intuição. Eles de alguma maneira já sabem naquilo em que realmente se querem tornar. Todo o resto é secundário.



Quando eu era jovem, havia uma publicação extraordinária chamada Whole Earth Catalog que foi uma das bíblias da minha geração. Foi criada por um tipo chamado Stewart Brand , não longe daqui em Menlo Park, onde ele o trouxe à vida com o seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos processadores de texto. Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid.



Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes de o Google aparecer. Era idealista e transbordando de ferramentas únicas e de grandes ideias. Stewart e sua equipa publicaram várias edições de Whole Earth Catalog e então, quando cumpriram a sua missão, lançaram uma edição final. Isso foi em meados dos anos 70 e eu tinha a vossa idade.



Na contracapa da última edição havia uma fotografia de uma estrada do interior iluminada pelo nascer do sol, daquelas em que te verias a apanhar boleia se fosses suficientemente aventureiro. Abaixo, estavam as palavras:
“Mantenham-se famintos, mantenham-se tontos.”



Era a mensagem deles de despedida. “Mantenham-se famintos, mantenham-se tontos.”. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, que vocês se formam e começam de novo, eu desejo-vos isso. Mantenham-se famintos, mantenham-se tontos.

Muito obrigado a todos.

Steve Jobs

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *