Soltando o passado

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Soltando o passado

Eu queria fazer croquetes nas nuvens. Ela, com os seus 10 anos, quis tirar fotografias para o Facebook. Perante o olhar incrédulo, expliquei-me: quando era criança, saía do mar e atirava-me para a areia rebolando até ficar como uma croquete. ”

Depois mergulhava novamente e repetia tudo até a minha mãe se fartar dessa minha estratégia para poder ficar mais tempo na água. Agora, quando vejo nuvens de perto, apetece-me fazer o mesmo, qual reminiscência da infância. Felizmente, as nuvens evocam-me uma boa lembrança, mas também podia dar-se o inverso. O mesmo acontece com as recordações das vidas passadas. Explica-nos Yvone A. Pereira que podemos ter reminiscências do passado sem saber que elas são o passado espiritual a manifestar-se timidamente nas nossas faculdades. E esta é apenas uma das muitas situações em que é útil ter conhecimento sobre Espiritismo.

A recordação do passado pode, como ensinou Bezerra de Menezes, ser uma faculdade mediúnica com dois lados e ambos podem ser trabalhados. Num caso, pode assemelhar-se a uma obsessão – com ou sem um espírito desencarnado – que provoca uma grande tristeza, um grande desânimo que atinge quem recorda, emprestando um véu triste a toda a existência da pessoa. Noutro caso, aqueles que recordam as suas vidas passadas não padecem de qualquer desequilíbrio e têm positividade, vitalidade, intensidade vibratória e uma sensibilidade intensa.

Yvone A. Pereira conclui que recordar o passado reencarnatório é uma faculdade que, no caso de ser mediúnica e se educada, não trará problemas na vida de quem recorda. Essa faculdade é instrumento de evolução e é assim que devemos olhar para ela, sem fascinação ou submissão. Para isso, é útil reconhecermos que na mesma medida em que seguramos o passado, ainda que velado, também o podemos soltar, deixando-o cair como um objecto na mão. Claro que o problema é que o passado também nos segura e ficamos impotentes. Quando isso acontece, parece que nós e o passado somos um só e sujeitamo-nos à dor, à culpa, ao sofrimento com ou sem associação à nossa vida actual. O certo é que ficamos associados a essas memórias, algumas das quais podem não ser nítidas, mas impedem-nos de tirar o passado da mente.

O que fazer, então, quando aquele que aprisiona e o próprio aprisionado são idênticos?

Temos de recorrer a nós mesmos e/ou a Deus, trazendo-O para a nossa vida. Sabemos que há incertezas sobre os nossos anseios e desejos, que há limitações na nossa vontade, conhecimento e recursos. Este reconhecimento em si mesmo revela um grau de maturidade. Busquemos, então, uma maturidade adicional pela invocação do Infalível, pela invocação da graça de Deus para aceitar o que não podemos mudar. As nossas tristezas, agitações, anseios originam-se, muitas vezes, da nossa inaceitação e incompreensão do passado. Então, a prece, a invocação da graça e entrega a Deus, é o que efectua a mudança que permite que o passado se vá. Na entrega está o reconhecimento. Estabeleço esse relacionamento fundamental com o Senhor através da prece. Quando eu era criança, recorria à minha mãe ou pai sempre que precisava de ajuda. Agora, adulta/o recorro à fonte de tudo. Livremente, vou à fonte. E oro por força e clareza para aceitar alegre e simplesmente o que não posso mudar. Não responsabilizo ninguém, nem mesmo a mim própria/o e deixo o passado partir, lembrando o que disse o instrutor espiritual a Kardec: “Sempre é possível, a quem quer que seja, subtrair-se a um jugo, desde que com vontade firme o queira”. Aceitar algo é dar liberdade para ser o que é. Aceito as nuvens como elas são, quer elas me causem sofrimento ou me alegrem com a imagem de me rebolar nelas. Como aceito as nuvens? Não as culpo por não poder saltar pela janela do avião para fazer croquetes. Assim, a disposição para aceitar o passado é aquela que se obtém ao receber alguma coisa alegremente. Ou quando imagino um céu à noite iluminado pela lua e muitas estrelas. Não quero que o céu seja diferente. Nem quero que o meu passado seja diferente. É aqui que existe total aceitação e me submeto, com alegria, ao Senhor, dizendo-Lhe:

Senhor, ajuda-me a aceitar inteiramente o meu passado. Se eu tiver tido inúmeros nascimentos, ajuda-me a aceitar todos eles. Que eu veja claramente a sabedoria de aceitar-me e de como posso mudar o entendimento de mim, de Ti e do mundo. Que me esforce na medida certa para o conseguir. Que o meu tempo e energia sejam direccionados a mudar o que posso e não a tentar mudar o que não posso. Ajuda-me, Deus, a aceitar a mente autojulgadora, autocrítica, autoacusadora, autocompassiva. Ofereço-te a minha vontade. Não quero a Tua graça para evitar a autocrítica, mas sim para aceitá-la. Peço-Te serenidade para simplesmente aceitar a totalidade do meu passado e as suas consequências. Possa eu ter o amor por reconhecer, o amor por ser objectiva/o. Que eu não fique com temor do erro, nem confundida/o entre convicções válidas e infundadas.

Ora e ora sempre, advertia Joana de Ângelis. A liberdade última é a do pensamento; “pode-se-lhe deter o vôo, porém, não aniquilá-lo”, ensina o Livro dos Espíritos. Não posso saltar do avião, mas não deixo de me encher de alegria ao ‘recordar’ umas belas croquetes nas nuvens.

Filipa Ribeiro

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