Pelos olhos do outro

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Pelos olhos do outro

Na televisão passavam imagens violentas de um velho ditador caído nas mãos daqueles a quem subjugou. As palavras do repórter asseguravam que o capturado era um déspota sanguinário mas as imagens mostravam um homem assustado numa posição vulnerável, vítima indefesa da agressão bárbara de uma multidão que exultava a sua sede por vingança. Confundido, o meu filho de dez anos perguntou-me: “Pai, quem são os bons e quem são os maus?”

Limitar a compreensão do mundo a uma visão ingénua de bons e maus, colocando-se sistematicamente no lugar dos bons, é a forma ingénua que uma criança encontra para dar algum sentido à disparidade de atitudes e emoções que ela vai aprendendo a reconhecer. A maturidade, a experiência e o conhecimento de nós próprios, deveria levar-nos a abandonar este preconceito maniqueísta, entendendo que será preciso muito mais do que impressões para descobrir o que é para lá daquilo que parece. No entanto, na maior parte das situações continuamos a limitar a complexidade do comportamento humano a um simplismo estranho de preto e branco, bom e mau, certo e errado, definindo aqueles que nos rodeiam pelas suas atitudes visíveis mas que acabam por ser reduzidos ao que mostram de pior. Naturalmente indignados diante do que está mal, lamentamos e expomos verbalmente as máculas do criminoso, do delinquente, do tirano, do pedinte, do drogado, do egoísta, do invejoso e do manipulador, mas dificilmente vamos mais além dos lamentos e condenações.

Dessa forma, não ficamos habilitados a compreender. Compreender não é o mesmo do que aceitar ou pactuar com os comportamentos alheios mas reflectir com base em todos os elementos da explicação. Treinar a compreensão é desenvolver uma benevolência que nos possibilita o entendimento das razões do outro, levando em linha de conta as limitações de personalidade, os obstáculos, dificuldades e os seus conflitos íntimos, reconhecendo a complexidade social, biológica e espiritual que influencia o comportamento humano.

Compreender não é encontrar regozijo na justiça dos homens nem exigir a justiça de Deus mas, sensibilizar-se com o lado humano do Espírito agoniado diante da sua própria ignorância, lembrar as virtudes ocultas pelo desespero, os sucessivos enganos nas encruzilhadas do caminho, sentir o medo que o paralisa, o esforço inglório de elevação, auscultar o passado doloroso, as feridas abertas transportadas de outras existências.

Vivemos numa sociedade que está carente de compreensão. Acusamos demais, criticamos com muita facilidade, julgamos de forma ligeira com base em pré-juízos e ideias feitas. Esta forma de relacionamento afasta-nos uns dos outros, estimula a desconfiança, promove a discriminação, as desigualdades, as generalizações e os lugares comuns. Torna o mundo em que vivemos mais agressivo e menos solidário. Um mundo mais solitário e individualista em que milhares de milhões de pessoas vivem dentro das suas bolas de sabão, procurando impedir que essas bolas de sabão toquem umas nas outras. Não é possível compreender à distância da reprovação, permanecendo na superficialidade da aparência. Para compreender é preciso fazer um esforço para nos colocarmos no lugar do outro, calçarmos as suas sandálias gastas de viajante dos tempos. É um trabalho extremamente difícil mas se não sairmos da nossa bola de sabão, da nossa carapaça, da perspectiva egocêntrica em que nos posicionamos, para tocar as dores e dificuldades dos que nos rodeiam, nunca seremos capazes de compreender.

Jesus, olhando para a mulher adúltera que todos queriam apedrejar não a identificou com o erro: Ele viu uma mulher aflita que necessitava da sua compreensão. Jesus sabia das limitações daqueles que o rodeavam e reconhecia que as suas atitudes equivocadas eram fruto natural da ignorância que ainda prevalecia. Não existe maior exemplo de compreensão do que as suas palavras no auge do suplício: “Perdoa-lhes Pai, eles não sabem o que fazem!” Compreender é uma expressão da caridade, braço da fraternidade. Caridade é também desenvolver um esforço para ver no outro a graça apagada pelas escolhas erradas, a virtude ofuscada pela miséria, pela ignorância, pela dor e pelo desespero. Agostinho da Silva, um dos maiores pensadores Portugueses do século XX, dizia que uma das mais grandiosas mensagens de Jesus de Nazaré foi a de inspirar à descoberta da graça nos outros, graça essa que depois de descoberta, deveria ser soprada como quem sopra a uma fogueira que se está a extinguir. Uma forma de relacionamento que procura ver noutro ser humano, independentemente do seu comportamento aparente, alguém que pede a nossa compreensão. É que talvez não haja maior expressão de humanidade do que conseguir ver o mundo pelos olhos daqueles que a multidão persegue e apedreja.

Carlos Miguel

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